quinta-feira, 14 de outubro de 2010

As faces de um poliedro

Tenho uma alma nostálgica. Nem por isso fumo, gosto de café, ou vivo ouvindo Beatles. Nem sou tão fã de Beatles assim. E detesto café. Não tenho um melhor amigo, tirando o meu travesseiro, que é para quem eu conto todas as minhas preocupações e medos e angústias todas as noites, e o que eu não conto, ele simplesmente sabe, ainda que eu não fale. Tenho uma aptidão à fotografias, mas nem por isso saio pelas ruas exibindo minha máquina fotográfica, fotografando tudo o que eu vejo - é diferente. Eu fotografo o que eu sinto. E o que eu sinto, sempre prefiro guardar dentro de mim - não tenho essa famosa facilidade que muitos têm de demonstrar os sentimentos. Prefiro mantê-los seguros, para evitar decepções ao deixá-los viver por conta própria. E eu escrevo porque, ao escrever, sinto-me livre. Livre dos fantasmas e monstros e borboletas mortas que vivem, viveram e viverão dentro de mim, impregnando-me. Repulsando-me. Restabelecendo-me, de alguma maneira. Escrevo porque não encontro outra forma que esteja ao meu alcance para libertar-me de mim mesma - daquele meu eu interior que, de tanto gritar por liberdade, acaba prendendo-se nela. Perdendo-se nela. Perdendo-se em mim. Escrevo porque, ao escrever, vomito palavras que não saem de mim com gritos ou lágrimas ou sorrisos de canto de boca. É a minha forma de escapar da minha própria realidade - é o meu ponto de fuga. E se eu posso encontrar alguma outra forma de fazê-lo, sinceramente espero nunca saber.

domingo, 19 de setembro de 2010

Passageiro

O vento sopra com raiva aqui desse lado da cidade. Ele passa por entre as árvores, escapa de si mesmo, e chega à minha janela. Grita seu nome como se eu pudesse entender sua língua, e me faz compreender que não é preciso entendê-lo - porque ele já me entende. E assim como eu me recosto nos trilhos da janela do meu quarto observando o nada, a lua, o céu, as nuvens, e pensando em mil e um motivos pra poder fugir de mim mesma, dormir e acordar dentro de algum outro eu menos turbulento, ele recosta-se sobre minha face, penetra em meus ouvidos e me entende. Me entende, mesmo que eu não explique nada. Mesmo que eu não justifique os meus pensamentos - porque ele, melhor do que ninguém, sabe como é ser passageiro. Sabe como é ser momentâneo - em um instante, em um dia, em uma vida. Ele sabe como é ser eu.

domingo, 22 de agosto de 2010

Sem despedidas

Eu olhava para o céu. Ele olhava para mim. “Você já pensou sobre o que faria pelo restante do dia, se soubesse que esse seria seu último dia de vida?” Perguntei. “Já, mas nunca concretizei nada à respeito. Mas pensando agora.. bem, eu correria pelado pelas ruas da Avenida Paulista, se me pedissem. Aliás, qualquer coisa que me pedissem. Exceto matar. Mas essa eu poderia até pensar, já que seria meu último dia, não é mesmo? Ninguém saberia, sequer suspeitaria. E se acontecesse, eu já não estaria mais aqui para sofrer as consequências mesmo. Faria o que me desse na telha… Poderia até me vestir de mulher e passearia pelas ruas à noite só pra ter a sensação de como é um travesti aos olhos de centenas de notívagos curiosos..” E riu. Eu ri também. “Eu falo sério, me responde.” “Viajaria pro lugar mais longe que pudesse e passaria o restante do meu tempo lá mesmo. Ou viajaria para a praia mais bonita e solitária que conheço.. Longe das pessoas, longe do mundo. Perto da paz, da calmaria. E sem despedidas, porque odeio despedidas. Despedidas me trazem a sensação de que a pessoa me esquecerá rapidamente, porque sabe que não voltarei. Sem despedidas, ela fica na expectativa. Ou pelo menos, não esquece. Mas essa sensação de nunca voltar, me amedronta. Tanto de mim quanto de outros, por isso não me despeço…” E olhou para o céu também, com o olhar triste, como se hoje fosse realmente o último dia de sua vida e ele sabia que não poderia fazer mais nada além de lamentar e esperar seu tempo acabar. “Mas e você, o que faria?” Disse para mim, olhando para o infinito, com cabeça encostada na grama. “Não sei..” Eu sabia. Mas preferi não pensar nas palavras certas, eram tantas ideias, tantas imaginações.. “Na verdade, eu também não sei.” Interrompeu-me. “Eu poderia fazer tudo isso, como não fazer nada. Mas se meu tempo acabasse agora, tendo essa oportunidade de rir e conversar com você, observando-a admirar o céu, e me fazer perguntas tão inesperadas.. eu já iria embora feliz. Mas sem despedidas.”

terça-feira, 20 de julho de 2010

Incessante

Fotografias vazias, espalhadas mutuamente no mural da parede do quarto, para o qual não consigo não olhar, e ao mesmo tempo, não relembrar-me dos instantes passageiros e eternos que passei com você. Cadeira vazia ao lado da cama, esperando que alguém se acomode e a esquente, em todas as tardes gélidas de inverno que se passavam em preto e branco através da janela do quarto. Ela espera por você. Cama vazia, desarrumada. E da porta do quarto eu ainda posso ver: seu sorriso amanhecido, e um olhar singelo, convidando-me a assistir os pequenos raios de sol que invadiam a janela a cada manhã, com nossos braços entrelaçados uns nos outros - mas sempre perdíamos. Preferia assistir a felicidade que seu sorriso sincero transbordava de dentro pra fora, e então para dentro de mim, contagiando-me. Fazendo-me sorrir. Fazendo-me feliz, instantaneamente. E então eu deito na cama, abraço a sua presença ausente, e adormeço. Algumas lágrimas ousam tentar escapar, mas então, você as enxuga. Você as enxuga, porque eu sei que você ainda está aqui. E sempre estará - ao meu lado, em minha memória, em meu peito, esteja eu onde estiver. Você permanecerá aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fraquezas

Eu posso ver através de seus olhos vazios, essa alma cansada que clama por um assento eterno, destinando-se à um lugar desconhecido até então, ainda que suas atitudes neguem tal afirmação. Eu posso ver através das suas mentiras sujas todas aquelas histórias antes contadas à mim, com sua mais pura arte de persuadir e seduzir-me, como uma sereia à um pescador, tirando-lhe toda sanidade e sobriedade, deixando-lhe a desejar quando encostas seu corpo fétido e não mais útil à sua inofensiva beleza ao chão imundo, assim como o que há por dentro dessa exuberante beleza exterior: apenas a mais putrefata carne humana, que sequer um sobrevivente à carniça das mais podres, resistiria, caindo, assim como os pobres pescadores e minha própria pessoa, ao chão tão imundo quanto o reflexo de sua alma nas poças que esparramam-se pelo recinto.
Sim, minha cara, eu posso ver. Que por dentro desses detalhes tão agradáveis ao olhar de quem se vê, há nada mais além do que um pobre e frágil espírito, caçando corpos à seu favor, para assim então, debruçar-se neles por completo, e acalmar serenamente sua dor incessante causada por todo o sofrimento que tivera ao longo de uma jornada mais dolorosa e magnífica já existente, que é comumente conhecida por Vida.
Mas não se preocupe: não lhe contarei histórias ou contos ou fábulas para tentar seduzir-te e fazer de sua pessoa um pobre e vil pescador. Não sou dessa estirpe. Tenho lá meus motivos e minhas lembranças, e ainda que sejam das mais estupefatas, abster-me-ei em relação a isso. Apresento-me aqui, agora, apenas com um objetivo em mente: o qual seria dizer à ti, minha cara, que as tentativas de persuadir e humilhar alguém, por mais desprezível que seja, não faz de ti, ou de qualquer maldito ser humano, melhor, e sequer ameniza sua dor - e ao invés disso, faz com que ela só aumente, ao notar o estrago desnecessário que tenha feito com alguma alma maldita e também cansada dessa jornada em que todos estamos, fazendo com que caia em suas garras não tão poderosas, mas assim parecendo ser quando atinge profundamente o outro com sua lábia e palavras hipnotizantes. Mas não se engane – não estou aqui para julgar-te. Aliás, quem sou eu para fazê-lo, não é mesmo? Apenas mais uma pobre alma que, agora, deixa-te debruçar sobre mim, com suas mais doces e sutis palavras, fazendo-me notar o quão tolo e ingênuo fui, ao acreditar em ti, e em todos aqueles sentimentos que dizia sentir por minha pessoa. Mas ainda assim, não me culpo. Como já lhe disse, posso ver através de seus olhos toda essa fraqueza em abundância que habita essa carne maldita. Não tente escondê-la com estes atos. E sua face não será a mesma por toda a eternidade – e com a ação do tempo, você será impedida de usar todo esse exuberante exterior à seu favor. Entretanto, a sua dor continuará a mesma. E seu olhar não me enganará. Não mais. Lembre-se disso.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

De volta pra casa.

Sentado discretamente em uma sombra perdida dentre tantas outras naquele parque pequeno e comum, ele acendia mais um cigarro. Era o terceiro daquele dia – e enquanto a observava, dava sua primeira tragada. Sua visão não era inédita – ele a perseguia todos os dias. Não era um maníaco em sua extrema e notável ambição, como suporia. Era apenas mais outro alguém tentando encontrar-se em outros corpos – mas ele não queria o plural, ele queria o singular. O singular no qual aquela menina se encaixava. Aquele singular mais complexo e ao mesmo tempo mais simples que já havia visto, e que abrangia todos os plurais e tempos verbais possíveis, em um só corpo. Em uma só voz. Em um só nome – o qual ele não fazia ideia de como poderia ser. Na verdade até fazia – sonhava e imaginava e idealizava dias e noites com a menina, sussurrando o seu desconhecido nome ao alternar entre beijos e carinhos em seu pescoço e nuca e orelhas e braços e mãos, enquanto estivesse deitada ao seu lado, abraçada a ele. Até a hora em que via-se sozinho, e a intensa luz a qual invadia sua janela impedia-o de abrir os olhos, e então, insistia em acreditar que ela continuava ali, agarrada a seus braços, dormindo serenamente, como se não houvesse luz nenhuma, ou sequer um outro corpo desconhecido debruçado ao seu lado, acreditando em sua onipresença, e que fingia estar presente ao agarrar um travesseiro e sussurrar seu suposto nome para o vento, o qual o respondia com um “boa noite” e o fazia dormir tranquilamente.

Mas até então, ele só a observava. Sentada em um ponto certeiro, não tão próximo a ele, mas ainda em seu campo de visão, ele poderia distinguir com toda certeza a sua expressão ao término de cada página virada, do livro que estava debruçado no local onde ele sempre imaginou e quis estar. A cada dia que a observava. A cada dia que a admirava. E no intervalo de tempo que ele demorou pra pensar em todas as noites e momentos em que a colocava ao seu lado em seu próprio pensamento, imaginando-a estar presente ali, acendeu outro cigarro. Parecera uma eternidade, mas ela só terminara de ler uma página, ou uma página e meia. Ela sentava-se quase sempre no mesmo local, e ele tinha praticamente certeza de que ela nunca o percebera ou o perceberia ali, em sua sombra - que agora já tinha a audácia de se referir à ela assim, como sua – e que o esperava diariamente, no mesmo horário, com a mesma caixa de cigarro no bolso, e com o mesmo chaveiro barulhento entre os dedos, que os galhos já estavam acostumados a ouvir. Até que, em mais um dia vazio como aqueles, ele novamente a viu chegar. Nada diferente, sequer o sorriso que estampava em seu rosto toda vez que a via – mas esse era rotineiro, e apenas por esse motivo. E então, o barulho das chaves chacoalhando entre seus dedos pareceu mais áspero do que nunca, que até os galhos – antigos amigos -pareciam reclamar. Solidificou-se uma imagem estranha ao lado daquela outra imagem que seus olhos estavam acostumados e maravilhados a ver diariamente. Uma imagem grotesca, que conseguiu fazer o que ele nunca fizera antes. A menina agora sorria. Sorria como uma criança que acabara de ganhar um novo brinquedo, e o livro – aquele o qual ele queria transformar-se repentinamente, só para poder tocar-lhe ao menos uma vez, e deixar que ela o lesse completamente, virando suas páginas, e descobrindo seu desejo mais que secreto, e mais antigo de todos – que ficava debruçado onde ele sempre desejou estar, agora debruçava-se sobre a grama. Parecia estar bem lá. E o lugar ao qual ele pertencia, fora tomado por outra cabeça, por outros pensamentos, e por outras palavras: aquelas que a fizera sorrir. E esse, agora, arrancava-lhe um beijo. O beijo que ele sempre quis provar. O gosto que ele sempre quis sentir. E o sorriso que sempre estampava em seu rosto ao ver aquela imagem, parecia brochar. Diminuir-se por completo – e se não entrasse em extinção, com certeza só abrir-se-ia novamente por outro cigarro. Que fora a última imagem daquele dia: chaveiro, cigarro e alguns passos de volta pra casa. Sem mais imaginações.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ciclo vicioso.

Eu tenho um profundo sentimento vazio que preenche um espaço interminável aqui dentro de mim, em algum lugar. E a cada vez que escorre uma lágrima rastejando pelo meu rosto, deixando um rastro de pensamentos e emoções, sinto que o espaço interminável aumenta ainda mais, quebrando-se em pedaços notáveis, que correm em minhas veias, interrompendo a circulação de meu corpo. Interrompendo a minha circulação pelo mundo. Interrompendo-me.

Sinto que esses pedaços correm cada vez mais velozes, mas não em menor quantidade - pelo contrário. A cada rastro de pensamentos, mais pedaços. A cada pedaço, mais interrupções. E a cada interrupção, mais força. Conformação. Abstenção - de tudo aquilo que sei que não me faz bem, mas que insiste em perseguir-me em cada esquina escura da vida. Em cada beco mórbido, cada um mais frio e longo que o outro. Sem saída. E a abstenção para por aí. Voltam os rastros, o que traz de volta os pedaços, e as interrupções. E o ciclo recomeça.

domingo, 13 de junho de 2010

O ápice.

[…]

Desde muito tempo você tem pensado no que dizer… mas você sabe muito bem no que EU penso em te dizer. Eu não vou repetir, Ollie. Você mexe comigo. E felizmente ou não, meu coração dá um certo balanço cada vez que eu te vejo e converso contigo. Não me pergunte o porquê, até porque eu não saberia explicar. É assim e ponto. Você foi me conquistando de pouco em pouco, e ainda que eu não pudesse (ou não quisesse poder) retribuir o sentimento, ele foi se escondendo e aumentando em algum lugar dentro de mim, e agora, pareço um copo d’água transbordando lentamente, a cada vez que paro para te ver, te analisar, te observar. Admirar. Mas agora, no ápice desse sentimento, eu acho que consigo ver a realidade. Daqui de cima, tudo fica mais claro. Sem aquela neblina toda que chamam de confusão sentimental, porque é isso mesmo. Não passa de confusão - todos aqueles sentimentos e emoções e mais sentimentos e dúvidas e certezas se misturam e formam uma neblina densa, a qual te cega completamente, e assim, você fica perdido. Perdido, completamente. E então aparece uma saída, que é você quem escolhe ou não seguir: a montanha, na qual me encontro agora. O ápice de tudo. E ao subir, você tem uma visão panorâmica, e enxerga tudo claramente - apenas se quiser realmente enxergar. E então você percebe a diferença, a sutil diferença, entre uma paixão, um amor verdadeiro e uma ilusão. Os três estão ali, bem juntos. O terceiro, junta-se mais facilmente ao primeiro, que caso concretize-se, torna-se o segundo. O segundo só se torna real, na maioria das vezes, se o terceiro não existir. E o terceiro, bom, é impossível escapar dele. Mas aqui fica a dica: a montanha não é para qualquer um; mas você tem a sua escolha. Basta apenas decidir-se.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Conformidade necessária

Era uma noite chuvosa. Sozinha em casa, olhando para o nada, ou mais especificamente, para o teto. Ouvia o tic-tac do relógio, e cada minuto parecia demorar cada vez mais pra passar. Olhava para a janela, e cada gota que nela encostava, parecia um tilintar em meus ouvidos. E a cada barulho estrondoso que os trovões faziam, sentia meu corpo estremecer e congelar, espontânea e momentaneamente. Pareço estar em transe. E parecia que isso demoraria a passar.

Toca o telefone. E o transe que parecia demorar a passar, extinguiu-se completamente. Toca o telefone novamente. “Alô, poderia falar com a...” E cai a ligação. Mais uma vez: “Alô? Alô?” Em vão. E então, de repente, bate a solidão de novo – a chuva agora tinha deixado-me a sós com meus pensamentos. Mas meus pensamentos vazios não pareciam uma boa companhia. E então, a porta se abre. E com ela, veio uma imagem, que eu, em meu transe e solidão profunda, não consegui distinguir, até que o barulho da porta fechando-se, novamente tirou-me do transe.”Hey, tudo bem?” Escuto dizer. “Allie? Tudo bem com você?” E enfim, olho para a nova imagem presente. “Está tudo bem sim...” E o encontro dos olhos foi longo e intenso, ainda que por alguns segundos apenas. A imagem veio se aproximando, vagarosamente, e ligeiramente, como quem quer tentar descobrir o que se passa na cabeça de alguém, sem assustá-la. Senti seu calor e sua alma, abraçando a minha. Senti a aspereza e profundidade de seu olhar, bem assim, de encontro ao meu. Senti sua ausência ao tentar doar-se por completo àquela pobre alma solitária debruçada sobre o sofá de uma sala gelada, tentando encontrar refúgio e calor para seus pensamentos. “E então, você veio.” Pensei. Pensei e falei, para mim mesma. Com a intenção de que você ouvisse, mas com o desejo de que você descobrisse sozinho a minha gratificação pela tua vinda, sempre no momento certo. Sempre com as palavras certas, ainda que você não as pronunciasse – até porque isso era o menos necessário ali, naquele momento: Palavras. E se elas fossem pronunciadas, certamente não seria dado à elas a atenção suficiente. Não de minha parte – eu estava completamente em transe, mas agora, pela sua companhia. Meus devaneios então cessaram-se quando senti novamente seu calor, apenas se aproximando, sem encostar. Senti novamente a profundidade de seu olhar, de encontro ao meu. Senti meu corpo estremecer e congelar, espontânea e momentaneamente, de novo, mas desta vez não fora por causa de trovão algum – e sim pelo toque de sua mão sobre a minha, que vagarosamente subiu pelo meu rosto, e chegou ao seu destino: nuca. E a cada movimento daquele toque, até chegar ao seu ponto final, fez com que meu corpo se acostumasse, mesmo ainda estremecendo – parecia não se importar com mais nenhum movimento incomum, ali, naquele momento. E o calor que sentia, continuava se aproximando, vagarosamente. Aqueles olhos fixos não me deixavam pensar mais em nada que não fosse aquele momento. E então, senti seus lábios juntando-se aos meus, lentamente. Saí do transe anterior, para entrar em outro ainda mais profundo – fez-me esquecer de tudo ao meu redor: da chuva, que já havia voltado a inundar meus pensamentos, dos trovões, que eu já nem escutava mais, e da solidão, que naquele momento, era impossível pensar sobre. E aquele momento que parecia eterno, durou segundos, antes que eu pudesse visualizar a cena mais trágica de toda a minha vida, que eu, apesar de tudo, já deveria estar acostumada: “Eu tenho que ir.” E sem “mas” nem “porquês”, ele realmente tinha que ir – e levantou-se. Olhou para mim com olhar de quem não tem o que dizer, e espera que o outro diga algo para tentar resolver as coisas – mas tudo que eu consegui fazer foi acenar e dar um “adeus”, com a primeira e última lágrima daquele dia.

Exatamente assim: Sem “mas” e nem “porquês”, aquele fora o pior dia da minha vida, mas como toda lágrima nos ensina alguma coisa, aquela não foi uma exceção: “Acostumando-se, ou não, as pessoas sempre vão embora, sem explicações. Então não exija uma justificativa, apenas conforme-se, ou então você desperdiçará suas lágrimas.”
E foi assim que eu aprendi; sem “mas” e nem “porquês”.
A melhor e mais produtiva lição em toda a minha vida – nunca mais chorei.

domingo, 9 de maio de 2010

Memórias.

Eu ainda relembro todas aquelas memórias, frias e vazias.
E ainda que vazias, representam um enorme peso sobre meu peito, coisa que pressiona absurdamente meus sentimentos.
Coisa que me faz ter vontade de gritar silenciosamente, sem que ninguém possa escutar.
Coisa que, às vezes, me faz perder o controle.
Coisa que me faz chorar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Just one more.

Dizem que stresso as pessoas, que as irrito. Ainda que não fale nada. Que não as diga o que tenho, que não me abra. Como isso? Essa é uma das minhas características mais marcantes, desde que me entendo por gente. Ser introvertida, fechada. Bem, eu mudei demais, em comparação ao que sou hoje. Porém continuo invisível, e isso de certa forma, é ótimo. Mas não pra certos motivos. O que é então? Eu só sirvo para fazer as pessoas rirem, quando estou bem? Só sirvo quando as pessoas estão em seus momentos ruins, e como não sei negar ajuda, acabo estendendo-lhe a mão e o ombro, se precisar? Se é que ainda sirvo pra isso. Mas e quando eu estou no meu momento ruim? Preferem se afastar. Não importa o motivo, se é que o motivo importa. Sequer indagam-me o que houve – ainda que sei que só diria para os mais próximos. Mas e os mais próximos? Parecem afastar-se ainda mais que os outros. Como se não os enxergasse, e vice-versa. Preferem “deixar rolar”, como diriam. “Deixa melhorar, eu sei o que ela tem, em breve passará.” Não, não sabe. Você não sabe de nada. Ninguém sabe. Fingem saber, fingem entender, mas fingem só e somente para eles. Porque eu sei que não entendem, porém prefiro concordar para evitar a fadiga. “Sim, você entende. Exatamente. Já passa, já.” É.

Mas eu os irrito, eu os afasto. Apenas por não saber (e às vezes preferir nem tentar) compartilhar meus problemas e fantasmas com eles. E ainda dizem que entendem. E o pior é que eu sei que já deveria ter me acostumado com isso. Mas Marilyn Monroe disse, uma vez: “[...] Se você não sabe lidar com o meu pior, então com certeza você não merece o meu melhor.” É. Não merecem. E eu acho que não mereço sentir o que sinto, mas ainda assim, sinto. Acho que não mereço passar por tudo isso, sem uma explicação convincente, mas ainda assim, passo. Acho também que não precisava perder meu tempo pensando em tudo isso, mas continuo o fazendo. E isso está me corroendo. Como nada nunca me corroeu antes. Mas é, todos entendem, não é mesmo? “Já, passa, já.” É.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

For what it's worth?

Segundas chances.. as pessoas não sabem aproveitá-las.
Mas continuam implorando.

Não importa o quanto você se esforce pra tentar dar-lhe uma outra chance de se recompor, demonstrar que realmente quer aquilo e fazer o que seria particularmente correto pra ti - elas pegam a oportunidade, amassam com as próprias mãos, e jogam para o alto como se fossem balões em fim de festa. A festa com os seus sentimentos. Com a sua boa vontade. Com você.

E então você aprende. Aprende que segundas chances não importam - as pessoas não mudam. Ou pelo menos a maior parte delas. Mas isso não impede de tentar melhorar algo - nem que seja em tua própria vida. Vá lá: dê uma segunda chance. Mais outra, e mais outra. Espere o resultado. Positivos? Negativos? Acredito qual seria. E você também - não negue. Não finja otimismo: seja realista. E então você entenderá o que estou lhe dizendo.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ontem.

Agora você olha pra trás.
É, você sempre olha pra trás. Para aqueles bons momentos da infância, que você nunca esqueceu. Aquele brinquedo de Natal aos 10 anos de idade, inesquecível. A pessoa que te carregava no colo e te jogava pro alto, e ainda assim, fazia você se sentir seguro. Bons tempos aqueles. Em que você não precisava se preocupar com nada, além de onde guardar todos aqueles brinquedos novos que ganhou do Papai Noel, aquele cara que você nunca conheceu, mas sempre agradeceu indiretamente com um sorriso estampado no rosto de orelha a orelha ao olhar para aquele amontoado de caixas embrulhadas com papel colorido embaixo da árvore de Natal.
Saudade da época em que o fato de acreditar em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa era unânime entre todos da turma, primos e amigos.
Saudade da época em que estourar bexigas em festas de aniversários era o auge da diversão, assim como assoprar a vela no lugar do aniversariante e cuspir no bolo sem querer.
Saudade da época em que eu era feliz. Mas mesmo sendo feliz, era entediante. E então, sendo feliz e entediante, era insatisfeita. Como é possível?
Saudade. Nostalgia.
Pra que te quero?
É só eu parar pra tomar um ou dois copos de coca-cola, e sentar-me à mesa, observando os detalhes da toalha de centro rendada, que ela aparece.
Inconvenientemente.
E imutável.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Eternidade temporária.

Era noite de sexta-feira, nada programado. Oito horas da noite, Anne me liga. “Mas você sabe que não sou de ir nessas festas, Anne. Não sei por que você insiste! Não adianta, não irei.” E ela continua, parece que o que lhe acabara de lhe dizer, entrara por um ouvido e saíra pelo outro. “Não adianta, Anne, desista. Agradeço muito pelo convite, mas não é a primeira vez que recuso algo desse tipo, e você deveria saber melhor que ninguém que não gosto dessas festas. Desculpa, mas tenho que desligar, está acabando a bateria do celular. Conte-me como foi a festa depois, Anne! Se cuida.” E desligo. Bem, na verdade a bateria estava inteira, mas se não tivesse dito isso, ela com certeza teria insistido por pelo menos mais três minutos pra eu ir àquela bendita festa. E três minutos pra isso, é tempo demais pra mim.

Na verdade, o que eu queria naquele momento, não era festa alguma. Estava uma noite gelada, com uma garoa fraquinha, e uma brisa refrescante. Meus pais tinham saído de viagem por uma semana, portanto, estava sozinha em casa. Pra alguns, isso soaria como alguma voz ecoando, lá no fundo: “Festa!”, ou “Amigos, bebida e balada!”... Mas pra mim não. Não que eu seja tão antissocial assim, apenas não aprecio essas coisas. Ou talvez seja mesmo. Enfim, com aquele frio gostoso lá fora, permiti-me deixar a janela entreaberta, e deitei-me na cama pra assistir a um de meus filmes prediletos. O que faltava naquela noite? Coberta + frio + chocolate quente + filme de “romance” = devaneios interruptores e rotineiros. Interruptores porque interrompem o filme. Rotineiros porque não tem um dia em que não apareçam. Ele. É, ele. Descobri a resposta. É ele quem falta, e é ele quem eu espero. Essa noite, e várias outras passadas.

E então ele chega. Abre a porta vagarosamente, e entra como quem não quer fazer barulho algum pra acordar terceiros, mas só estava eu na casa, e ele sabia que eu estava bem acordada. Ouço o barulho de seus passos na escada. Consigo enxergá-lo, mesmo sem vê-lo, olhando para os lados, tentando descobrir de onde vem o som. Mas ele sabe que é do meu quarto, e que estou à sua espera. Então ele abre a porta, de novo vagarosamente, que já está entreaberta, esperando que ele a abrisse. E então olha pra mim, e eu percebo um brilho diferente em seus olhos. Ele deixa seus sapatos ao lado da porta, mas não a tranca. Apenas encosta. Quem poderia querer entrar também? E então, aproxima-se. Olha pra TV, olha pra mim, e inclina seu corpo sobre o meu, apoiando-se sobre seus braços, que me cercam na cama. Olha diretamente em meus olhos, e diz algo que eu não consigo entender. Estava tão surpresa com aquela situação, tão concentrada em seus olhos, que sequer consegui compreender suas palavras. “Oi?”, tento. Em vão, ele não responde. Abaixa-se um pouco mais, e encosta sua barba por fazer em meu rosto – sinto meu corpo gelar. E repete em meu ouvido: “Eu disse... que senti sua falta hoje.” Nesse momento ele voltou seus olhos para os meus, e eu sabia que eu não precisava dizer mais nada. Ele também sabia. E então encostou sua mão esquerda em minha face, acariciando-a, e encostou seus lábios nos meus. Segurei seu rosto com minhas mãos, fazendo-o deitar-se ao meu lado na cama. Virei-me em sua direção – a direção da parede – e fiquei observando-o, e brincando de dedilhar sua barba por fazer. Sorrimos juntos. Ele então me dá outro beijo, e me abraça. Faz-me virar para a TV novamente ao perguntar-me quantas vezes já tinha assistido àquele filme. “Já perdi as contas”, e ri. “Esse também é um dos meus preferidos”, diz ele. “Eu sei.” Ele então entrelaça seus dedos com os meus, que agora estão sobre o cobertor e minha barriga, e encosta seus lábios em meu pescoço. Sinto meu corpo congelar outra vez, apesar de sentir sua respiração quente sobre minha pele. Não resisto. Viro, e dou-lhe um beijo no canto dos lábios, pressionando-os contra os meus, e viro-me novamente. Escuto seu riso, e então ele me vira em sua direção, e rimos juntos mais uma vez. Abraçados. Uma eternidade. Parecia que aquilo tudo duraria pra sempre, em questão de segundos. E acordamos desse mesmo jeito.

Toca o telefone. É Anne, querendo falar sobre a festa da noite anterior. Quase que acabo perguntando-lhe sobre que festa ela estava falando, mas a única coisa que sai é: “O que deu em ti pra me ligar a essa hora da manhã?” E então ouço um grito – ao menos foi o que pareceu, já que estava acabando de acordar: “Manhã? Já passa do meio-dia, Alice! Onde estava e o que estava fazendo que acabou de acordar?” Agora sim, acordei. Meio-dia! Como perdi tanto a noção do tempo? E olho pra cama. Acabo soltando um sorriso involuntário, mas sem graça, como quando se acaba de achar a resposta para um problema que, depois de resolvido, passa a ser ridículo de tão óbvio. “Alice?” – escuto. “Alice, estou falando com você, responde!” – então lembrei-me do telefone que estava em minhas mãos. “Estou aqui, estou aqui, desculpa. Hum... Anne, você poderia me ligar mais tarde? É que estou meio ocupada aqui. Ou então se preferir, te retorno a ligação quando der.” – tentei. “Ocupada... Sei. Tudo bem, minha querida Alice, volte pra sua cama quentinha. A tarde, quando puder, me retorne a ligação, por favor. Tenho que te contar umas coisas!” – senti seu ânimo de longe. “Tudo bem então, te retornarei. Se cuida, Anne!” – e desliguei.

Voltei para a cama, e descuidadosamente, acabei acordando-o. Mas mesmo assim, não disse nem fiz nada. Apenas continuei observando-o – dava pra enxergá-lo com os rastros dos raios de sol que invadiam minha janela e penetravam as persianas.

Ele então se vira para cima, abre os olhos, e me pergunta que horas são. “Não sei, mas sei que já passa do meio-dia.” – e ri. Ao ouvir, ele parece espantar-se, mas acaba soltando um sorriso – indescritível. “Está acordada há muito tempo?” – perguntou. “Não, acabei de acordar com Anne me telefonando. E ainda pensei que era de manhã...” – ri novamente. E era impossível não sorrir ao olhar para aquele rosto amassado de sono com um sorriso encantador. “Hum... Acho que dormimos um pouco demais, não?” Sem dúvida, respondi. Dou um beijo em seu rosto, e então ele me abraça, com força. “Se eu pudesse, não sairia mais daqui.” E ao ouvir isso, com aquela voz amanhecida e aquele sorriso indescritível, foi inevitável ficar sem graça. Ficamos ali, juntos, abraçados. Uma eternidade. Parecia que aquilo tudo duraria pra sempre, em questão de segundos. Mais uma vez.

 

© 2009Dead Souls | by TNB