segunda-feira, 24 de maio de 2010

Conformidade necessária

Era uma noite chuvosa. Sozinha em casa, olhando para o nada, ou mais especificamente, para o teto. Ouvia o tic-tac do relógio, e cada minuto parecia demorar cada vez mais pra passar. Olhava para a janela, e cada gota que nela encostava, parecia um tilintar em meus ouvidos. E a cada barulho estrondoso que os trovões faziam, sentia meu corpo estremecer e congelar, espontânea e momentaneamente. Pareço estar em transe. E parecia que isso demoraria a passar.

Toca o telefone. E o transe que parecia demorar a passar, extinguiu-se completamente. Toca o telefone novamente. “Alô, poderia falar com a...” E cai a ligação. Mais uma vez: “Alô? Alô?” Em vão. E então, de repente, bate a solidão de novo – a chuva agora tinha deixado-me a sós com meus pensamentos. Mas meus pensamentos vazios não pareciam uma boa companhia. E então, a porta se abre. E com ela, veio uma imagem, que eu, em meu transe e solidão profunda, não consegui distinguir, até que o barulho da porta fechando-se, novamente tirou-me do transe.”Hey, tudo bem?” Escuto dizer. “Allie? Tudo bem com você?” E enfim, olho para a nova imagem presente. “Está tudo bem sim...” E o encontro dos olhos foi longo e intenso, ainda que por alguns segundos apenas. A imagem veio se aproximando, vagarosamente, e ligeiramente, como quem quer tentar descobrir o que se passa na cabeça de alguém, sem assustá-la. Senti seu calor e sua alma, abraçando a minha. Senti a aspereza e profundidade de seu olhar, bem assim, de encontro ao meu. Senti sua ausência ao tentar doar-se por completo àquela pobre alma solitária debruçada sobre o sofá de uma sala gelada, tentando encontrar refúgio e calor para seus pensamentos. “E então, você veio.” Pensei. Pensei e falei, para mim mesma. Com a intenção de que você ouvisse, mas com o desejo de que você descobrisse sozinho a minha gratificação pela tua vinda, sempre no momento certo. Sempre com as palavras certas, ainda que você não as pronunciasse – até porque isso era o menos necessário ali, naquele momento: Palavras. E se elas fossem pronunciadas, certamente não seria dado à elas a atenção suficiente. Não de minha parte – eu estava completamente em transe, mas agora, pela sua companhia. Meus devaneios então cessaram-se quando senti novamente seu calor, apenas se aproximando, sem encostar. Senti novamente a profundidade de seu olhar, de encontro ao meu. Senti meu corpo estremecer e congelar, espontânea e momentaneamente, de novo, mas desta vez não fora por causa de trovão algum – e sim pelo toque de sua mão sobre a minha, que vagarosamente subiu pelo meu rosto, e chegou ao seu destino: nuca. E a cada movimento daquele toque, até chegar ao seu ponto final, fez com que meu corpo se acostumasse, mesmo ainda estremecendo – parecia não se importar com mais nenhum movimento incomum, ali, naquele momento. E o calor que sentia, continuava se aproximando, vagarosamente. Aqueles olhos fixos não me deixavam pensar mais em nada que não fosse aquele momento. E então, senti seus lábios juntando-se aos meus, lentamente. Saí do transe anterior, para entrar em outro ainda mais profundo – fez-me esquecer de tudo ao meu redor: da chuva, que já havia voltado a inundar meus pensamentos, dos trovões, que eu já nem escutava mais, e da solidão, que naquele momento, era impossível pensar sobre. E aquele momento que parecia eterno, durou segundos, antes que eu pudesse visualizar a cena mais trágica de toda a minha vida, que eu, apesar de tudo, já deveria estar acostumada: “Eu tenho que ir.” E sem “mas” nem “porquês”, ele realmente tinha que ir – e levantou-se. Olhou para mim com olhar de quem não tem o que dizer, e espera que o outro diga algo para tentar resolver as coisas – mas tudo que eu consegui fazer foi acenar e dar um “adeus”, com a primeira e última lágrima daquele dia.

Exatamente assim: Sem “mas” e nem “porquês”, aquele fora o pior dia da minha vida, mas como toda lágrima nos ensina alguma coisa, aquela não foi uma exceção: “Acostumando-se, ou não, as pessoas sempre vão embora, sem explicações. Então não exija uma justificativa, apenas conforme-se, ou então você desperdiçará suas lágrimas.”
E foi assim que eu aprendi; sem “mas” e nem “porquês”.
A melhor e mais produtiva lição em toda a minha vida – nunca mais chorei.

domingo, 9 de maio de 2010

Memórias.

Eu ainda relembro todas aquelas memórias, frias e vazias.
E ainda que vazias, representam um enorme peso sobre meu peito, coisa que pressiona absurdamente meus sentimentos.
Coisa que me faz ter vontade de gritar silenciosamente, sem que ninguém possa escutar.
Coisa que, às vezes, me faz perder o controle.
Coisa que me faz chorar.
 

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