quarta-feira, 16 de junho de 2010

De volta pra casa.

Sentado discretamente em uma sombra perdida dentre tantas outras naquele parque pequeno e comum, ele acendia mais um cigarro. Era o terceiro daquele dia – e enquanto a observava, dava sua primeira tragada. Sua visão não era inédita – ele a perseguia todos os dias. Não era um maníaco em sua extrema e notável ambição, como suporia. Era apenas mais outro alguém tentando encontrar-se em outros corpos – mas ele não queria o plural, ele queria o singular. O singular no qual aquela menina se encaixava. Aquele singular mais complexo e ao mesmo tempo mais simples que já havia visto, e que abrangia todos os plurais e tempos verbais possíveis, em um só corpo. Em uma só voz. Em um só nome – o qual ele não fazia ideia de como poderia ser. Na verdade até fazia – sonhava e imaginava e idealizava dias e noites com a menina, sussurrando o seu desconhecido nome ao alternar entre beijos e carinhos em seu pescoço e nuca e orelhas e braços e mãos, enquanto estivesse deitada ao seu lado, abraçada a ele. Até a hora em que via-se sozinho, e a intensa luz a qual invadia sua janela impedia-o de abrir os olhos, e então, insistia em acreditar que ela continuava ali, agarrada a seus braços, dormindo serenamente, como se não houvesse luz nenhuma, ou sequer um outro corpo desconhecido debruçado ao seu lado, acreditando em sua onipresença, e que fingia estar presente ao agarrar um travesseiro e sussurrar seu suposto nome para o vento, o qual o respondia com um “boa noite” e o fazia dormir tranquilamente.

Mas até então, ele só a observava. Sentada em um ponto certeiro, não tão próximo a ele, mas ainda em seu campo de visão, ele poderia distinguir com toda certeza a sua expressão ao término de cada página virada, do livro que estava debruçado no local onde ele sempre imaginou e quis estar. A cada dia que a observava. A cada dia que a admirava. E no intervalo de tempo que ele demorou pra pensar em todas as noites e momentos em que a colocava ao seu lado em seu próprio pensamento, imaginando-a estar presente ali, acendeu outro cigarro. Parecera uma eternidade, mas ela só terminara de ler uma página, ou uma página e meia. Ela sentava-se quase sempre no mesmo local, e ele tinha praticamente certeza de que ela nunca o percebera ou o perceberia ali, em sua sombra - que agora já tinha a audácia de se referir à ela assim, como sua – e que o esperava diariamente, no mesmo horário, com a mesma caixa de cigarro no bolso, e com o mesmo chaveiro barulhento entre os dedos, que os galhos já estavam acostumados a ouvir. Até que, em mais um dia vazio como aqueles, ele novamente a viu chegar. Nada diferente, sequer o sorriso que estampava em seu rosto toda vez que a via – mas esse era rotineiro, e apenas por esse motivo. E então, o barulho das chaves chacoalhando entre seus dedos pareceu mais áspero do que nunca, que até os galhos – antigos amigos -pareciam reclamar. Solidificou-se uma imagem estranha ao lado daquela outra imagem que seus olhos estavam acostumados e maravilhados a ver diariamente. Uma imagem grotesca, que conseguiu fazer o que ele nunca fizera antes. A menina agora sorria. Sorria como uma criança que acabara de ganhar um novo brinquedo, e o livro – aquele o qual ele queria transformar-se repentinamente, só para poder tocar-lhe ao menos uma vez, e deixar que ela o lesse completamente, virando suas páginas, e descobrindo seu desejo mais que secreto, e mais antigo de todos – que ficava debruçado onde ele sempre desejou estar, agora debruçava-se sobre a grama. Parecia estar bem lá. E o lugar ao qual ele pertencia, fora tomado por outra cabeça, por outros pensamentos, e por outras palavras: aquelas que a fizera sorrir. E esse, agora, arrancava-lhe um beijo. O beijo que ele sempre quis provar. O gosto que ele sempre quis sentir. E o sorriso que sempre estampava em seu rosto ao ver aquela imagem, parecia brochar. Diminuir-se por completo – e se não entrasse em extinção, com certeza só abrir-se-ia novamente por outro cigarro. Que fora a última imagem daquele dia: chaveiro, cigarro e alguns passos de volta pra casa. Sem mais imaginações.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ciclo vicioso.

Eu tenho um profundo sentimento vazio que preenche um espaço interminável aqui dentro de mim, em algum lugar. E a cada vez que escorre uma lágrima rastejando pelo meu rosto, deixando um rastro de pensamentos e emoções, sinto que o espaço interminável aumenta ainda mais, quebrando-se em pedaços notáveis, que correm em minhas veias, interrompendo a circulação de meu corpo. Interrompendo a minha circulação pelo mundo. Interrompendo-me.

Sinto que esses pedaços correm cada vez mais velozes, mas não em menor quantidade - pelo contrário. A cada rastro de pensamentos, mais pedaços. A cada pedaço, mais interrupções. E a cada interrupção, mais força. Conformação. Abstenção - de tudo aquilo que sei que não me faz bem, mas que insiste em perseguir-me em cada esquina escura da vida. Em cada beco mórbido, cada um mais frio e longo que o outro. Sem saída. E a abstenção para por aí. Voltam os rastros, o que traz de volta os pedaços, e as interrupções. E o ciclo recomeça.

domingo, 13 de junho de 2010

O ápice.

[…]

Desde muito tempo você tem pensado no que dizer… mas você sabe muito bem no que EU penso em te dizer. Eu não vou repetir, Ollie. Você mexe comigo. E felizmente ou não, meu coração dá um certo balanço cada vez que eu te vejo e converso contigo. Não me pergunte o porquê, até porque eu não saberia explicar. É assim e ponto. Você foi me conquistando de pouco em pouco, e ainda que eu não pudesse (ou não quisesse poder) retribuir o sentimento, ele foi se escondendo e aumentando em algum lugar dentro de mim, e agora, pareço um copo d’água transbordando lentamente, a cada vez que paro para te ver, te analisar, te observar. Admirar. Mas agora, no ápice desse sentimento, eu acho que consigo ver a realidade. Daqui de cima, tudo fica mais claro. Sem aquela neblina toda que chamam de confusão sentimental, porque é isso mesmo. Não passa de confusão - todos aqueles sentimentos e emoções e mais sentimentos e dúvidas e certezas se misturam e formam uma neblina densa, a qual te cega completamente, e assim, você fica perdido. Perdido, completamente. E então aparece uma saída, que é você quem escolhe ou não seguir: a montanha, na qual me encontro agora. O ápice de tudo. E ao subir, você tem uma visão panorâmica, e enxerga tudo claramente - apenas se quiser realmente enxergar. E então você percebe a diferença, a sutil diferença, entre uma paixão, um amor verdadeiro e uma ilusão. Os três estão ali, bem juntos. O terceiro, junta-se mais facilmente ao primeiro, que caso concretize-se, torna-se o segundo. O segundo só se torna real, na maioria das vezes, se o terceiro não existir. E o terceiro, bom, é impossível escapar dele. Mas aqui fica a dica: a montanha não é para qualquer um; mas você tem a sua escolha. Basta apenas decidir-se.
 

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