terça-feira, 20 de julho de 2010

Incessante

Fotografias vazias, espalhadas mutuamente no mural da parede do quarto, para o qual não consigo não olhar, e ao mesmo tempo, não relembrar-me dos instantes passageiros e eternos que passei com você. Cadeira vazia ao lado da cama, esperando que alguém se acomode e a esquente, em todas as tardes gélidas de inverno que se passavam em preto e branco através da janela do quarto. Ela espera por você. Cama vazia, desarrumada. E da porta do quarto eu ainda posso ver: seu sorriso amanhecido, e um olhar singelo, convidando-me a assistir os pequenos raios de sol que invadiam a janela a cada manhã, com nossos braços entrelaçados uns nos outros - mas sempre perdíamos. Preferia assistir a felicidade que seu sorriso sincero transbordava de dentro pra fora, e então para dentro de mim, contagiando-me. Fazendo-me sorrir. Fazendo-me feliz, instantaneamente. E então eu deito na cama, abraço a sua presença ausente, e adormeço. Algumas lágrimas ousam tentar escapar, mas então, você as enxuga. Você as enxuga, porque eu sei que você ainda está aqui. E sempre estará - ao meu lado, em minha memória, em meu peito, esteja eu onde estiver. Você permanecerá aqui.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Fraquezas

Eu posso ver através de seus olhos vazios, essa alma cansada que clama por um assento eterno, destinando-se à um lugar desconhecido até então, ainda que suas atitudes neguem tal afirmação. Eu posso ver através das suas mentiras sujas todas aquelas histórias antes contadas à mim, com sua mais pura arte de persuadir e seduzir-me, como uma sereia à um pescador, tirando-lhe toda sanidade e sobriedade, deixando-lhe a desejar quando encostas seu corpo fétido e não mais útil à sua inofensiva beleza ao chão imundo, assim como o que há por dentro dessa exuberante beleza exterior: apenas a mais putrefata carne humana, que sequer um sobrevivente à carniça das mais podres, resistiria, caindo, assim como os pobres pescadores e minha própria pessoa, ao chão tão imundo quanto o reflexo de sua alma nas poças que esparramam-se pelo recinto.
Sim, minha cara, eu posso ver. Que por dentro desses detalhes tão agradáveis ao olhar de quem se vê, há nada mais além do que um pobre e frágil espírito, caçando corpos à seu favor, para assim então, debruçar-se neles por completo, e acalmar serenamente sua dor incessante causada por todo o sofrimento que tivera ao longo de uma jornada mais dolorosa e magnífica já existente, que é comumente conhecida por Vida.
Mas não se preocupe: não lhe contarei histórias ou contos ou fábulas para tentar seduzir-te e fazer de sua pessoa um pobre e vil pescador. Não sou dessa estirpe. Tenho lá meus motivos e minhas lembranças, e ainda que sejam das mais estupefatas, abster-me-ei em relação a isso. Apresento-me aqui, agora, apenas com um objetivo em mente: o qual seria dizer à ti, minha cara, que as tentativas de persuadir e humilhar alguém, por mais desprezível que seja, não faz de ti, ou de qualquer maldito ser humano, melhor, e sequer ameniza sua dor - e ao invés disso, faz com que ela só aumente, ao notar o estrago desnecessário que tenha feito com alguma alma maldita e também cansada dessa jornada em que todos estamos, fazendo com que caia em suas garras não tão poderosas, mas assim parecendo ser quando atinge profundamente o outro com sua lábia e palavras hipnotizantes. Mas não se engane – não estou aqui para julgar-te. Aliás, quem sou eu para fazê-lo, não é mesmo? Apenas mais uma pobre alma que, agora, deixa-te debruçar sobre mim, com suas mais doces e sutis palavras, fazendo-me notar o quão tolo e ingênuo fui, ao acreditar em ti, e em todos aqueles sentimentos que dizia sentir por minha pessoa. Mas ainda assim, não me culpo. Como já lhe disse, posso ver através de seus olhos toda essa fraqueza em abundância que habita essa carne maldita. Não tente escondê-la com estes atos. E sua face não será a mesma por toda a eternidade – e com a ação do tempo, você será impedida de usar todo esse exuberante exterior à seu favor. Entretanto, a sua dor continuará a mesma. E seu olhar não me enganará. Não mais. Lembre-se disso.
 

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