quinta-feira, 14 de outubro de 2010

As faces de um poliedro

Tenho uma alma nostálgica. Nem por isso fumo, gosto de café, ou vivo ouvindo Beatles. Nem sou tão fã de Beatles assim. E detesto café. Não tenho um melhor amigo, tirando o meu travesseiro, que é para quem eu conto todas as minhas preocupações e medos e angústias todas as noites, e o que eu não conto, ele simplesmente sabe, ainda que eu não fale. Tenho uma aptidão à fotografias, mas nem por isso saio pelas ruas exibindo minha máquina fotográfica, fotografando tudo o que eu vejo - é diferente. Eu fotografo o que eu sinto. E o que eu sinto, sempre prefiro guardar dentro de mim - não tenho essa famosa facilidade que muitos têm de demonstrar os sentimentos. Prefiro mantê-los seguros, para evitar decepções ao deixá-los viver por conta própria. E eu escrevo porque, ao escrever, sinto-me livre. Livre dos fantasmas e monstros e borboletas mortas que vivem, viveram e viverão dentro de mim, impregnando-me. Repulsando-me. Restabelecendo-me, de alguma maneira. Escrevo porque não encontro outra forma que esteja ao meu alcance para libertar-me de mim mesma - daquele meu eu interior que, de tanto gritar por liberdade, acaba prendendo-se nela. Perdendo-se nela. Perdendo-se em mim. Escrevo porque, ao escrever, vomito palavras que não saem de mim com gritos ou lágrimas ou sorrisos de canto de boca. É a minha forma de escapar da minha própria realidade - é o meu ponto de fuga. E se eu posso encontrar alguma outra forma de fazê-lo, sinceramente espero nunca saber.
 

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