quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ode à obsessão

Mais uma cicatriz dilacerada - ''abram alas para mais um sofrimento'', era quase possível se ouvir dizer. Sofrimento que transformava-se em gotas, que passavam desde o início do antebraço, e transformavam-se em pequenas poças quando escorregavam pelo cotovelo até o piso frio - tão frio quanto meu próprio corpo, estirado ao chão, exausto, destruído, entorpecido.
Meu silêncio gotejante gritava por socorro – mas não o socorro físico, porque ele já não valia mais nada. Mas o socorro interno – necessitava-se um resgate urgente, rápido, e intenso. De uma forma que me assegurasse de que ele não seria mais requisitado – de uma forma que me assegurasse de que eu estava realmente curada – de mim, da dor, do mundo. De tudo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[...]

Minhas mãos estão cinzas. Não sinto meus ossos e tampouco consigo movimentar-me. Minha visão repentinamente torna-se um poço de águas imundas e impedem-me de reconhecer qualquer objeto que se apresentasse à minha frente. Sinto-me fraco. A abstinência se concretizara em um grande vazio que fora tomado pela tentação e absorvido pelo prazer. Cartelas reluzentes e pequenas cápsulas de dor descansavam ao lado esquerdo de meu corpo, agora estirado ao chão como um carne fétida fora de uso. Poço de podridão. Pecador. Ao meu lado direito, no entanto, uma simples e bela caneta, detalhada com uma palavra em letra cursiva a qual não conseguira identificar e tampouco me importava no momento, mas fora útil ao fazer de mim uma nota para possíveis lembretes posteriores: e ao deixar um “Sinto muito” gravado em meu braço esquerdo, largara a caneta que agora transformava-se em lâmina diante do pulso que gotejava lágrimas de sangue e não pretendia dar um fim a essa magnífica cena tão cedo, enquanto eu me despedia da sanidade e dos pensamentos singela e vagarosamente.

Dezesseis

Escorreguei - escorregamos - no abismo em que criamos na linha do tempo. Uma vida desperdiçada. Quase lá. Mais um outono e tudo acaba. Fim. Temporariamente fechado, acabado. Encerrado. Sem caminhos de ida ou volta, sem escolhas. Mas para quê escolhas? Escolher tudo novamente me faria voltar ao mesmo ponto de partida de onde saí - já que não me vejo correndo para outros caminhos e pensando nas alternativas. Fim. Mais um outono e tudo acaba. Um ano. Uma fenda na memória onde não pretendo arriscar-me a chegar perto. Que seria de um deslize ao passar por ali? Memórias sobrecarregando-me por mais um ano - e volto ao abismo temporal. Não. Sem memórias, sem deslizes, sem abismos. Você aí, eu aqui. Simples como a chuva que insiste em cair lá fora e não me dá expectativas de que cessará brevemente. Pelo contrário, resolve cair ainda mais forte, como pegadas de alguém que corre de lembranças na chuva. Mas repentinamente ela para. E então eu percebo que você não está mais aí. Voltou com a chuva para perturbar-me. Voltou como um deslize no abismo da linha do tempo onde eu nem me arriscaria chegar perto. E agora eu sei que ela, a chuva, não vai mais parar.
 

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