quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Apatia

Havia um brilho intenso na sua raiva. Uma luz diferente, uma chama alta, que parecia ter se alimentado por anos com todas as suas mágoas e emoções mais profundas – e você a encostou em mim. Na verdade, jogou-a contra mim com toda força ainda existente dentro de seu peito que não conseguira extinguir-se apenas com lágrimas. Mas, de alguma forma, a chama ainda ardia firmemente dentro de você. Eu enxergava isso na sua raiva, nos seus olhos. Na sua agressividade, e enquanto todo o temperamento sutil que você tivera um dia se esvaia a cada insulto proferido pelos lábios que eu, um dia, esperei receber de tudo – exceto o que recebi naquele momento. Suas palavras machucaram-me como uma lâmina afiada em sutis movimentos deslizando pelo meu corpo – uma não, milhares delas. Demonstrei-me inabalável, como era esperado de minha natureza. Mas logo depois, desabei. Minha construção diária de força e vitalidade transformara-se em pó em um milésimo de segundo ao reparar no estrago em que eu me tornara quando me encontrei em mim. Sabia que minhas munições eram fortes o bastante para abaixar a sua reta-guarda, mas a chama que vi em seu olhar e o modo como ela me tocara, fizera-me paralisar – foi o exato segundo em que notei todo o prejuízo causado por mais uma futilidade, que custara a repugnância e o rancor de ambos os lados e resultara em uma aniquilação em massa de sentimentos e emoções, e o mais importante: confiança. E logo em seguida, foi o segundo em que notei que esse era o combate final – não haveria mais batalhas e nem sentimentos: só o rancor e as cicatrizes deixadas para trás.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Aos demônios do tempo: Ode ao ódio

Imunda. Egocêntrica. Asquerosa. Essas seriam as poucas palavras que poderiam definir a tua existência – a tua personalidade, alma, caráter. Eu poderia dizer mais, porém me permito gastar tempo apenas para defini-la em três palavras. Únicas, poucas palavras. Diferentemente das que você atirou contra mim – tantas palavras e sílabas e frases que eu não pude nem me dar conta que o seu objetivo era insultar-me. Eu não pude nem me dar conta que o fim disso tudo transformar-se-ia em uma tragédia em poucos segundos – segundos que finalizaram o que fora criado em dezessete anos. Quase duas décadas, dividida entre dois séculos e três centenas. E muitos segundos – segundos de alegrias, risadas, sorrisos que nos últimos tempos transformaram-se em segundos eternos de raiva, rancor e ódio. Asco, repugnância. E se fosse possível concretizar esses segundos radicalmente, eu os definiria como uma cova transbordando ratos imundos e toda a escória do mundo. Todo o eu. Todo você.
Não é de meu agrado olhar para a sua imagem ao meu lado e tentar relembrar tudo o que um dia compartilhamos e ver um muro negro, da cor do céu estrelado. Mas sem estrelas. Sem nem um ponto de luz, nenhuma esperança, nenhuma memória reluzente que seja capaz de cegar o presente e deixar-me em paz para tentar sorrir ao ver o que se passou. Nenhuma.
Entretanto, insisto em procurar na escuridão uma única chama acesa sequer – em vão. É como procurar uma agulha num palheiro – não é impossível, mas demoraria o tempo suficiente para fazer-me desistir e tentar encontrar esperança em outro lugar. Em outra memória. Em outro muro negro – ou talvez na própria escuridão que habita minha mente. Mas na esperança que supostamente encontrarei lá, certamente não se encontra você.
Por fim, já que não pretendo levar este trágico enredo por muito tempo, permita-me desejar-lhe toda a sorte do mundo – se é que acreditas em sorte. Permita-me desejar-lhe toda a vida que tanto almejas, e todo o bem presente nela. Permita-me desejar-lhe todo o amor que houver no mundo – assim como riquezas, beleza e posses, dentre outras coisas fúteis que tanto lhe fascinas. Permita-me, porque eu não me permito. Não depois de todo o lixo que descarregara sobre minhas costas trazendo a escuridão presente em mim ainda mais pra perto – sinto que está beirando a linha tênue que divide minha insanidade particular da realidade vivida por mim. Não me faça pensar o que aconteceria caso ela, a escuridão, ultrapassasse essa linha. Não faça-me desejar isso. Pois então, permita-me. Permita-me desejar-lhe tudo o que disse anteriormente – porque o que ainda resta de minha sanidade não me permite. E, se eu lhe desejasse o que o outro lado da linha realmente quer que eu lhe deseje, o muro negro transformar-se-ia em um mar imundo de palavras vazias, mas pontiagudas. E tenha certeza que elas perfurariam o fundo da sua alma, torturando-lhe até o último suspiro presente em ti – e te levariam para o fundo do mar, de onde nunca mais sairia. De onde nenhuma alma seria capaz de retirar-lhe. De onde você gritaria eternamente pelo meu socorro, mas eu estaria ocupada demais descarregando-me de todo o lixo que você, um dia, depositara em mim.
 

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