terça-feira, 28 de junho de 2011

Interiores

Olhava para a imagem refletida no espelho. “Quem é você? Por que tanto choras?” Mas a imagem se recusara a responder. “Por que tanto sofres?” E então parou. Ela não sabia a resposta, e nem saberia. A imagem também parecia não fazer ideia de como era a dor sólida, corada e gotejante que corria de seus pulsos para suas mãos e dedos agora, sentada em um canto gelado e sombrio de um cubículo coberto por um papel de parede completamente ladrilhado e espelhado. Ela se via em qualquer canto onde sua vista pairasse. Ela observava todos os ângulos de sua dor, de todas as maneiras, de todos os pontos de vistas. Cima, direita, esquerda. Embaixo. Atrás. Mas apenas o único modo em que os espelhos não mostravam, era justo o que ela não entendia: dentro. “Como chegara a esse ponto? O que fizera consigo própria?” Sem respostas. Mas quem precisa de respostas? Ela precisava. Ela desejava. Ela só não entendia o porquê, mas desejava, sentia que precisava delas, decididamente precisava, de alguma maneira. Ela só não entendia. Mas quem entende?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Luz

Sabe todos aqueles rostos, traços, olhos e abraços que vemos todos os dias? Bem, eu ainda te procuro entre eles. Mesmo sabendo que é mínima a chance de eu esbarrar com você em meu caminho. E hoje, na luz de cada olhar, em cada abraço apertado onde meus olhos pairavam lentamente enquanto as lembranças vinham à tona, em cada rosto sofrido pelas experiências da vida, eu te procurei, mais do que nunca. Mesmo sabendo que a chance de te ver andando por aí despreocupado e ocupado com os compromissos da vida, seja mínima. Mas em cada palavra proferida à minha pessoa, em cada segundo em que o vento beijou meu rosto e assoprou meu cabelo, eu senti você. Então te procurei ao meu redor novamente, mas não encontrei. Olhei através da janela do ônibus em movimento cada forma e rostos, em busca do seu, e então subitamente indaguei-me: “o que tanto procuras? E por quê?” “E respondi: “Dor. Por quê? Porque parece que ainda não tenho o bastante aqui dentro.” E voltei a fiscalizar cada olhar, cada vida cansada, à espera de uma recompensa inalcançável.

Mas você não apareceu.
E a dor continuou.

E hoje, na Luz, eu quero que saiba: eu te esperei. Mais do que um dia já esperei que toda essa dor passasse.

Mas hoje, na Luz, eu não te encontrei.
E a dor permaneceu.

E então da Luz, despedi-me.
Com lágrimas nos olhos, tão discretamente que ninguém percebeu.
Nem eu.

sábado, 11 de junho de 2011

Estranhos

Chega a ser engraçado notar a falta que aquele mundo, agora remoto, me faz sentir de repente. Planos, derrotas, falhas e por fim, vitórias. Grandes e almejadas vitórias. Pareço ser outra pessoa ao olhar pela janela do passado e enxergar aquela realidade que hoje parece fictícia se contar a alguém, até a mim mesmo. Olho fixo ao espelho e encaro aquele corpo à minha frente cujo semblante me causa uma indiferença imensurável, e cujos olhos – pequenas poças d’água perdidas em uma imensidão escura - me vigiam de uma forma angustiada. Olho, sinto. Não vejo, não reconheço. Não saboreio – o paladar de todo aquele mundo, agora em preto e branco, esvaiu-se com o tempo, juntamente com toda sua cor. Restaram-se cinzas. Restara eu. E o que fazer com esse eu que não reconheço? Inútil recipiente ambulante de melancolia e angústias, carregando o peso de toda uma vida mal vivida e um passado irreconhecível. Fora eu, um dia? Fomos nós? Não sei. Foram estranhos. Pessoas que um dia sentiram-se livres por inteiro, para o mundo, para eles mesmos. Estranhos. Nunca os conheci e jamais os conhecerei - talvez em outra vida, se existir alguma além da vã que já carrego em minhas costas.

Mas tenho o pressentimento de que não existe. E caso exista, não a deixarei pesar em meus ombros como a anterior; anteciparei o seu final para não mais do que alguns minutos após seu início. Eu não aguentaria tudo mais uma vez.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Retalhos de um sentimento dilacerado

E eu estive sempre aqui, deixada com a esperança de reconhecer o início de sua melhora, estando o mais próximo possível de ti, permanecendo aqui em meu ponto de vista e espera. [...]

Cada vez que sentia o calor do teu sorriso tímido que se esboçava em teu rosto aqui deste lado, eu sabia que era real. E sabendo que era real, eu sorria também. E mesmo nunca tendo presenciado esta cena, saber que o esboço de seu sorriso prolongava-se a um breve riso por algo que passaria indiferente e insignificante diante de algumas conversas fora de hora para matar o tempo e o tédio, fazia-me valorizar cada minuto gasto com cada palavra dita – tanto minha quanto sua. [...]

Mas nada disso era recíproco – e eu sempre soube. Fizera sempre questão de colocar isso na lista das coisas das quais eu não deveria esquecer sequer momentaneamente. Mas como poderia eu, justamente eu, estar à espera de reciprocidade? – tudo e somente o que eu deveria esperar, era o seu bem-estar, seguido por um sorriso de canto de boca silencioso cujo calor eu jamais sentiria, mas saberia que ali ele estaria. De alguma forma, eu saberia. Como sempre soube. [...]

Mas por que o espanto? – indago a mim mesma. Reciprocidade é algo de que o ser humano está sempre em busca. E inegavelmente, eu também estaria, não importa o quanto eu tentasse convencer-me do contrário. E ali estava eu, esperando – e então quando me dei conta de que isso jamais seria possível devido às circunstâncias da situação de ambos os lados, espantei-me: eu não conseguia mais fingir e tentar convencer-me do contrário. Mas ainda assim – apesar de ter a ciência de que a recíproca jamais seria verdadeira -, decepcionei-me quando vi que a realidade era mesmo real, e que eu estava bem presente nela assim como ela em mim, mesmo quando ela resolvia colocar-se para trás e dar espaço à minha imaginação. Ela nunca foi embora, e eu sempre soube. [...]

Como poderia? A realidade não muda nem nos agrada; mas mudamos ao nos darmos conta de que essa é a verdade. Desde então, aqui continuo eu, de mãos dadas com o que ainda me resta da esperança. Ainda consigo sentir o teu sorriso vez ou outra – coisa rara, mas que ainda tem o poder de fazer-me sorrir por um instante.

E, acima de tudo, ainda permaneço aqui, no meu ponto de vista e espera, te assistindo de canto de olho e torcendo para que tudo volte ao seu lugar de antes. Pois com ou sem reciprocidade, foi na crença da tua melhora onde me apoiei e de onde caí. Mas aqui encostada nos cantos frios da realidade, eu ainda te tenho em vista – e no coração.

 

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