terça-feira, 25 de outubro de 2011

Silêncio

O único caminho que restou para mim, o único lugar para onde tenho de ir é embora. Um dia, dois, três, uma semana, dois meses, cinco, dez, vinte anos. Para sempre. Para nunca mais voltar. Para deixar em meu lugar o vazio que reside em minha mente, em contraste com todos os pensamentos que correm e atropelam-se feito animais em fuga, feito gente imunda, feito ratos no esgoto, ao redor da imundície fétida depositada em cada canto de mim, por mim mesmo.

Então eu paro e observo a realidade: o fracasso corre em meu sangue, comigo, ao meu redor, e onde quer que eu vá, seu lugar estará reservado ao meu lado, e dentro de mim. Ir embora nunca pareceu tão difícil. Ir embora nunca pareceu tão impossível. Mas ir embora é meu único caminho, e estou na minha estrada, sempre estive, só faltava o primeiro passo – e agora estou quase no fim de minha aparentemente longa, e incontestavelmente desprezível jornada. A sensação foi de milhas, milhas e milhas caminhando e caminhando, ora parecia avistar algo – talvez mais um obstáculo, talvez mais uma desilusão, ora parecia desistir, mas sempre caminhando. Cada passo com sabor de desgosto, cada fôlego com cheiro de decepção. Estou deixando-os para trás agora. Estou deixando-me para trás, e agarrando-me ao nada, ao fim, ao desespero, e deixando a estrada e os ventos levarem o vazio de mim.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Distress

And as I lay my head to rest, importunate and dirty thoughts come up to my mind to disturb my unfortunate moment of single peace: I do not belong here.

domingo, 23 de outubro de 2011

Le vide

Eu olhava para o chão, olhava para o céu, e só via nuvens. Nuvens negras, densas e pesadas. Olhava para a sua foto na parede com a tintura parda já descascada, desmascarando seu tempo de vida sem discrição, e só enxergava poeira. Pó, sujeira. Olhava para o espelho e nada de diferente aparecia: apenas a mesma face rotineira, cansada, e vazia. E rimas, para quê? Não havia intenção de criar um som ameno ao expor essas palavras rudes, que parecem ser sempre para você. Não são. E mesmo se fossem, seriam em vão. Você se foi, e nada restou. Nem uma rima, nem uma vírgula, nem reticências. Você se foi e aqui jaz a abstinência, e aqui insiro um ponto final.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Defeitos (in)visíveis

Eu falei sobre você com outro alguém hoje. Alguém menos importante que você, muito menos. Não para outra pessoa, provavelmente, mas comparando-os, para mim não há dúvidas. Me disseram que você é o meu problema – a minha falta de sono, o meu sono excessivo, o meu desânimo, a minha inspiração, o meu tédio e o meu canto de todos os dias, em alto e bom tom. Me disseram que você é como a transparência do meu lado negro, não tão oculta assim, já que está em cada passo e pensamento meu. Me disseram também que meu sorriso lhe pertence, veja só. Não é engraçado? Você aí, possuidor de meu mais sincero sorriso. E eu aqui, sem nada, aos prantos, aos berros, aos pedaços, esparramando-me pelo chão como água, como nada, como sujeira, se acumulando nos cantos da casa. Indesejável.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Outubro

É doloroso saber que você está tão distante, aqui ao meu lado. Eu vejo você fechando os olhos e tenho vontade de conversar com o espelho coisas que você deveria ouvir, mas a realidade é que eu provavelmente taparia seus ouvidos enquanto falasse.

Eu choro quando te ouço respirar. Sabia? Não que eu deteste que faça isso, mas que eu me deteste por não conseguir tirar seus pensamentos ruins enquanto respira. Eu te assisto dormir e tenho vontade de gritar para o mundo que você é tudo o que eu sempre desejei, mas tenho medo de te acordar, então silencio minha vontade, e continuo a te assistir. E vagarosamente, nossa respiração torna-se uma. E eu choro, em silêncio.

 

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