sábado, 20 de outubro de 2012

Segredos


“Você sabe guardar segredos?” – perguntou-lhe com um olhar cabisbaixo, sereno, ainda que inquieto.  “Depende. Se forem meus, eu mais deixo escapar de forma indireta do que guardar dentro de mim. Mas se for de outras pessoas, eu consigo manter aqui dentro.” “Então posso te contar uma coisa?” – perguntou-lhe novamente, ainda olhando para os lados, procurando um buraco qualquer no chão ou nas paredes ou nos olhos de algum desconhecido onde poderia infiltrar-se e jamais sair de lá. “Claro, à vontade.”

           “Olha, eu estou aqui tentando te dizer isso da forma mais clara e direta possível sem deixar que interrupções interfiram minha linha de pensamento e confusa maneira de expressar-me. Eu tenho tentado há tanto tempo deixar isso claro pra mim mesma, sabe, tudo esclarecido, cristalino, sem uma sombra de dúvidas, mas eu cheguei ao ponto de entender que eu não me permito. Não me permito sentir-me bem, não me permito sentir que você poderia sentir algo por mim, não me permito sentir o gosto das lágrimas que incham meus olhos e explodem em meu peito, não me permito dizer o que sinto para alguém, mas hoje estou aqui dizendo, ou tentando, ao menos, expressar isso que guardo dentro de mim como se guardam cartas com conteúdos sofridos e indesejados no fundo de uma gaveta velha. Sabe? Hoje eu chorei por duas horas. Duas horas. Você sabe o que é isso? São 120 minutos da minha vida desperdiçados em pensamentos doloridos e travesseiros mofados. Enquanto isso, eu sentia a angústia de querer falar com alguém, mas enquanto eu me decidia se deveria permitir-me ou não fazer tal coisa, eu só chorava. Desperdicei cento e vinte minutos e provavelmente mais alguns da minha vida em plena indecisão, sobrecarregada de sentimentos intoleráveis e insuficiência, insuficiência de mim mesma, carência de minha própria atenção, ou de colos que permanecem distantes, ou de palavras nunca  ouvidas ou até engolidas por mim mesma e nunca ditas. Eu chorei e, incontáveis vezes, toquei no meu telefone celular e apertei o botão de mensagens e olhei todas aquelas coisas escritas e, por alguns segundos, pensei comigo mesma: será que algum de vocês sentem que eu estou me sentindo assim? Será que fazem ideia? E, em vão, eu gastava mais tempo esperando uma mensagem de preocupação do que redigindo uma dizendo que precisava de um pouco de colo e companhia para que, talvez, tudo aquilo passasse. No fim, não passou. No fim, me dei conta de que aqueles cento e vinte e poucos minutos não foram desperdiçados, não por completo: eles me fizeram compreender que, às vezes, eu tenho que deixar alguém entrar aqui ao invés de só deixar todas aquelas lágrimas saírem.”

“Então, não vai me contar o que queria?” – indagou-a com um olhar curioso e, de certa forma, aflito.

           “Ah, não é nada, deixa pra lá.”

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Invisível



                Os dias acabam por se tornarem monótonos, cinzas, acromáticos – inodoros, insípidos, irrelevantes. Impossíveis de serem vivenciados com um anseio notável. Insignificantes e insensíveis, mortos, adormecidos. Abre-se os olhos e declara-se uma morte: o dia já acabou enquanto começava. O cheiro do incenso inalado traz aparente calmaria, mas a turbina de sua mente é inabalável. Imaturo, inconstante, intenso. A grosseria com que os raios de sol adentraram sua janela feriu a sua escuridão interna; vão todos embora, sumam, deixem-me a sós comigo mesmo, deixem-me a sós com minha escuridão, deixem-me a sós com o incêndio dentro do meu peito causado pela turbina inabalável em minha mente, indecisa, insossa, inquieta, cujo recipiente onde se encontra torna-se invisível a cada instante, a cada respiração, a cada combustão dentro do peito que exala sangue de minhas veias e deixa-me à sós com meus pesadelos. Deixe-me, deixe-me. Permita-me ser invisível, permita-me não ser, que assim eu me permitirei também.

Apego



Queria mostrar-lhe a importância que tens em meus versos, mas assim acabaria o encantamento e o brilho nas palavras que vos sussurro. Guardo tua alma em mim mais do que tu em ti mesmo, e tenho a convicção de que ela estará dentro de mim para sempre; tu estarás dentro de mim para sempre. Nada que intervenha meu olhar a ti tem o poder de ocultar ou ofuscar o seu fulgor, nada nem ninguém; e quanto a mim, sou apenas um mero mortal à espreita olhando-te com o canto dos olhos e esperando que, um dia, possa ver teus lábios reluzentes encostar-se aos meus, que tanto lhe anseia e lhe espera, intensamente.
 

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