quarta-feira, 29 de maio de 2013

E separou

                  Não aguentando a angústia de não mais ser dela, dele, de alguém, ou de si mesmo, cedeu e entregou-se; abraçou a corda, que o abraçou de volta tão forte que o levou contigo com extrema fidelidade no "até que a morte nos separe".

Ironia da vida

                  Hoje eu a vi andando pela rua, e minha vontade de gritar que os monstros que estão abaixo da sua cama e dentro da sua cabeça são tão reais quanto o que ela estava ouvindo foi tão grande que não resisti. Não fora maldade, afinal, já que ela sempre quis saber a resposta. Os pássaros voavam baixo, e nesse instante quase soltei "e existem pássaros que podem te comer viva também", mas hesitei pois ela começara a me olhar estranho. "Qual o problema? Sou apenas um rapaz com um capuz preto vagando por aí. Não sou a morte dos quadrinhos, mas posso ser se quiser." Ela não ouviu, ou fingiu não o fazer. "Ou talvez aqueles desesperados e paranoicos que não sabem mais o que fazer com tamanha melancolia em suas vidas que escondem um revólver no bolso, e quando menos se espera, BOOM! e os miolos se esparramam pelo chão como uma fruta podre caindo de uma árvore." De tanto gesticular, ela entendeu qual era a minha. Chegou até mim e disse "talvez eu não seja apenas uma figurante andando pelas ruas te observando hesitante, talvez eu seja a personagem secundária da história que te leve a cometer tal alarde e BOOM! BOOM! e BOOM!, eu acabo com a história matando todos e a mim mesma." Gesticulou, assim como eu. Não me surpreendi. Voltei ao meu caminho e ela ao dela. Nunca mais a vi.

Segmentos

                  Tentei falar de amor, então ele me jogou na cama e me fez chorar. Tentei falar do tempo, aí começou a chover dentro de mim. Tentei falar das pessoas ao meu redor, mas parei na primeira linha. Tentei falar de dor, e ela me deu um chute tão forte que nem meus calmantes acabaram com minha crise de ansiedade. Tentei falar das crises, aí entrei em pânico e fiquei histérica. Tentei falar do pânico, e ele me deu um soco bem onde dói minhas fobias. Tentei falar das fobias, mas aí lembrei do sonho onde morro afogada e paralisei. Tentei então falar dos comprimidos, mas eram tantos que não sabia mais o que escrever e acabei dormindo.

Respostas

                   Tarde da noite. O frio traz as cobertas que aconchegam os pés mas que aos poucos sobem às pernas para lhe aquecer. Insônia maldita, pensa ela. Com alguns comprimidos em mãos, ela decide colocá-los de lado. Liga seu notebook e acessa uma página onde possui diversos temas e grupos de conversa com pessoas desconhecidas com a possibilidade de vê-las na tela. Eles também lhe veem.
                   Alguém aparece e manda uma mensagem. "Oi", diz o estranho. Ela não responde. Sua câmera está direcionada para o lado, onde estão os comprimidos. "Oi", repete o estranho. "Me chamo Michael. Poderia te ver, Liz?" Seu nome não era Liz, mas foi o primeiro nome que lhe veio à cabeça para colocar como apelido ao entrar no site. "Olá", e continua a conversa. "Você já está me vendo", diz.
- "O que vejo são apenas comprimidos, Liz. Pretende tomá-los essa noite?"
- "Eles são eu."
- "Não acredito que sejam."
- "Não importa no que acredite. Esta sou eu."
- "Você não respondeu."
- "O quê?"
- "A pergunta que lhe fiz. Pretende tomá-los essa noite?"
- "Menos de um quarto deles é o que tenho de tomar todos os dias. Acredita?"
- "Acredito. Então pretende acelerar os dias, Liz?"
- "O contrário, Michael. Pretendo encurtá-los."
- "Posso lhe contar uma história, Liz? É bem curta, e real. Está tudo bem se não quiser ouvir.", sua expressão não muda desde o primeiro momento em que apareceu na tela. Possui um semblante tranquilo, com um fino meio-sorriso no canto dos lábios.
- "Sim."
- "É assim: Eu sou você. Você está falando comigo e pretende me deixar calmo e fazer com que eu me esqueça dos comprimidos. Mas os comprimidos sou eu. São eles que me fazem mudar de humor dia e noite, acalmando um eu que prefiro manter dentro de mim para não apresentar mais danos à mim mesmo ou à terceiros. Finjo ouvir tudo o que você fala e digo que vou dormir. Mas a noite não acaba ali em meus planos. Saio de meu quarto e ando pela casa, como um zumbi, já me desligando de tudo com outros remédios diários, que fazem esse eu ficar quieto dentro de mim. Não há ninguém em casa, então penso "por que não?". Encosto no sofá da sala, deito no chão gelado com uma garrafa de bebida na mão e com os compridos na outra. Um por um, dois por dois, três, e por fim, um punhado. Já não sentia mais o gosto de nada e mal conseguia enxergar ou dar um passo. Tentei levantar, e cai, sentindo meu estômago como uma bomba, prestes a explodir. Era a segunda garrafa que eu tomava desde que havia descido. Então, passou um tempo e me encontrei em um hospital cheio de tubos e agulhas enfiados em mim. Não tinha forças pra me mover. Fazia três semanas que eu estava ali. Entrei em coma alcóolico. Não sei qual foi o efeito dos remédios senão me ajudar a dormir naquela noite. Nunca perguntei à ninguém. E hoje falo com a primeira pessoa em sete meses de reabilitação, pronto para sair da clínica."
- "Sinta-se lisonjeada, Liz. Você é a primeira e única que pensei em conversar logo que saísse daqui, ou enquanto ainda estivesse por aqui."
- "Engraçado como essa história tem um tanto a dizer sobre os comprimidos ao meu lado..."
- "Não é sobre os comprimidos. É sobre a minha pessoa. E sobre você."
- "O que tem a ver comigo?"
- "A resposta que está procurando. Esses comprimidos não vão encurtar os seus dias. Vão prolongá-los para semanas, meses e até anos em uma clínica."
- "Quem não arrisca, não petisca. Não seria a primeira vez a arriscar."
- "Passe a noite comigo, hoje é meu último dia."
- "Vai sair da clínica sozinho amanhã?"
- "Não. Vou sair dessa vida, junto com você."

Curto e ordinário

                  Hoje foi quase o último dia da minha vida, mas eu acabei acordando com a luz invadindo minha janela e com os latidos daquele cachorro maldito do vizinho. Onde já se viu cachorros latirem como galos no amanhecer? Vão todos para a puta que pariu. Levantei.
                   "O que será que tem pra comer?" pensei e falei, como se houvesse mais alguma alma viva nessa zona em que chamo de lar. Abri a geladeira e encontrei uma garrafa de leite. Tomei o restante que tinha. Não encheria nem meio copo de café. Visto uma de minhas calças sujas jogadas pelo chão e me jogo na cama de novo. "O que será que tem pra comer?" penso novamente. Me pareceu uma pergunta quase tão fútil como essa zona que chamo de vida. Não tem nada pra comer. Não tem nada pra viver. Os que restaram aqui são os que não foram aceitos em mais lugar nenhum. Nem céu, nem inferno, nem em sala de entrevista de emprego. Fracasso. Sou um fracasso. A vida é um fracasso.
                  Tirei a calça que acabara de colocar e me enrolei nos lençóis novamente. Quem sabe amanhã o sol se esquece de aparecer. Em caso de dúvidas, fechei as cortinas e voltei a dormir.

Transbordando demônios

                  Querido,

                  Há tantos eus e vocês dentro dessa sala onde só cabem dois que sinto-me sufocada só de pensar que uma hora terei de sair e transbordar todo o meu eu em algum outro lugar. Querido, me desculpe. Eu tenho sido tão vaga. Tão sombria, tão fria, tão distante. Você deveria saber, querido, eu estou tentando me livrar de mim mesma. Esses demônios aqui dentro não me pertencem e estou tentando lhes encontrar um novo lar. Mas eu apenas queria queimá-los e enterrá-los a seis pés abaixo de mim, entende? Não merece, um outro lugar, uma outra pessoa, um outro ser, conviver com os mesmos. São pesados demais para uma cabeça só. A ambulância me leva e me deixa sozinha e eles me trancam no quarto mas a campainha não toca quando eu os chamo, e eles continuam a me aterrorizar. Eles nunca param. A cama se encharca e gotas da cor dos rubis daquele anel que você me deu com pequenos e delicados entalhes pingam no chão do quarto e rastejam-se até o vão da porta e escuto gritos abafados, mas nada vejo. Eles tampam meus olhos, eles não me deixam ouvir o que os médicos dizem. "São muitos, não conseguiremos suturar rápido o bastan.." Escuto sussurros e sinto eles me acompanhando até outra sala onde acendem uma luz focal distante de meus olhos, mas perto o bastante para eu senti-la invadindo a névoa branca presente em meus olhos, se condensando em lágrimas. Eles fazem isso comigo, e é tão assustador que eu tenho medo de você não acreditar. Você acreditará em mim desta vez, não? Você vai acreditar? Escuto vozes "Estão expostos há muito..." mas não escuto a sua, querido. Você vai acreditar em mim? Ou vai acreditar neles desta vez? Querido, me desculpe; transbordei cedo demais. Você vai me perdoar?

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Wasted

                  "I wish that we were magic
                  So we wouldn't be so young & tragic."

Personalidades

                  "Quem é você?"
                  "Poesia."
                  "E quem te escreve?"
                  "O poeta de mim mesmo."

Ininterrupto

                Flores nascerão ao lado de meu túmulo, pois a chuva de dentro de mim não cessará nem quando minha respiração o fizer.

Anacronismo

                  Trocando minha mente de canal porque o chuvisco do canal "você" já me cansou.

Colorless

                  Dias cinzas dão cor à minha monocromia.

Falta

                  "Faz falta."
                  "O quê?"
                  "Só faz falta, a falta. Entre tanto copos e gente transbordando, a falta faz falta."

Versos

                  O que você não me diz é que faz a diferença.
                  Derrame-se, como palavras em versos de uma poesia.
                  Derrame-se, como as lágrimas que caem involuntariamente.
                  Derrame-se, pra dentro de mim.
                  Suplico - eu te aguento.
                  Só não sei por quanto tempo vou me aguentar.

Permanência

                  O frio que faz dentro de mim é o mesmo que entra pela tua janela, querido.
                  Eu sou teu espaço. Mas dentro de mim você não congela.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Pra mim

                  Escrever me dá a liberdade que meus atos me mantém longe.

Pra ti

                  Me deixa ser o teu café de todo dia, assim não falto na tua rotina e não te vejo de mau humor, meu amor.

Se esqueceram de (minha) luz

                  De todos os momentos em que sofri, todos doeram menos do que aquele que trouxe sorrisos enquanto eu chorava pela primeira vez.

                  Guardar esse frio dentro de mim, porque combinamos como pensamentos nublados combinam com chá quente.

Ego

                  Aguardo a ventania, enquanto me guardo à poesia e me ardo em meu ser.

                  A chuva se apossou de minhas lágrimas e agora eu não paro de chover.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Surreal

                  Queria aprender a dizer que o que sinto não se sente normalmente por pessoas normais ou anormais mas o que são pessoas normais e anormais num mundo tão diversificado e delicado cheio de pessoas ricas de bens e pobres de espírito e pessoas ricas de espírito mas também ricas de bens que só respeitam a si mesmo e aos seus chefes tão espertos e ingenuamente tão cheios de raça e graça que parecem fazer de propósito mas o trabalho deles é te encher de trabalho mas o que é o trabalho pra quem tem uma esposa e três bocas a mais pra sustentar com amor e carinho e atenção mas o que são esses sentimentos ações e palavras que tanto precisamos ouvir sentir dizer o que são essas palavras que estou dizendo o que elas dizem pra você?

Blossom

                  Once I met a man. Actually, I met this man’s eyes; they were looking to a plate whose words spoke: “Here lays down the best daughter anyone could ever have, and shall her body stay in a heavenly peace by now.” I kept staring at his eyes. They said nothing to me, but they weren’t vague at all. They were full of unspoken words and never given embraces, full of “I love you” but with a crack on this thought – it was a fight. They fought a lot with each other. Not physically speaking, but they knew quite well what to attack on theirs fights; they, as father and daughter, knew each other’s most deep weaknesses, which were their weapon. None of them survived at every fight. They died day by day. And now he’s crying his grief and misery bullets off upon her grave. She must answer with every flower that blossom besides her grave, watered with his tears every day.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Remédio

                  E se eu te dissesse que hoje nada mais se cura?

                  Corações partidos, veias interditadas, queimaduras de amor de verão, amores passados...
                  E você fica aí, me lendo, me reescrevendo, mas não passa aqui pra me curar.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Little words

                  Once I had you by my side.
                  Now I only have you in my words.
                  Loose words, short words, ephemeral words.
                  And they're gone with the wind.
                  Just like you.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Além do que se vê



                Despejo a alegria num pote de vidro e guardo no fundo do armário da minha imaginação efêmera. Quem foi que disse que pra viver precisa ser feliz? Minha melancolia é o que me arrastou até essas esquinas escuras da vida e que tudo o que trouxe comigo foi o peso do meu ego. Cansei das fugas em vão da vida. Sempre me encontro de cara com uma parede de vidro e teto despedaçado a cada passo que alguém dá lá em cima. Me encontro sempre um andar abaixo. Cada vez mais gente, cada vez mais estilhaços. Mas quem foi que disse que eu não posso construir o meu canto solitário resistente com todos os estilhaços caídos sobre mim?  Pois é nele que estou, e aqui me encontro em aconchego como quem se encontra nos braços de mãe. É frio, mas bate com a temperatura de meu ser e sei que só assim ele não desaba. Nem eu, nem meu canto.

Passar do passado

                  Somos todos tão jovens e tão adultos e tão crianças que não percebemos a vida passar, e quando vemos, passou-se décadas desde o dia em que te vi pela primeira vez. Mas eu ainda te vejo passar, todos os dias, pelo caminho que me liga ao teu all star vermelho desbotado, da cor deste órgão pulsante dentro de mim, que, por ventura, ainda suspira freneticamente ao te ver passar.
 

© 2009Dead Souls | by TNB